Sole Nardelli, talento natural e embaixadora Marca País

Como parte da nova geração de cozinheiros argentinos, esta chef representa uma combinação de vocação, talento e força feminina. Com a essência nacional como bandeira, comanda o Chila restaurante argentino que ocupa o vigésimo primeiro lugar entre os 50 melhores da América Latina.

Sua cozinha está baseada na curiosidade, na aprendizagem constante e na investigação, como chaves para compreender os produtos nacionais e oferecer o que define como “cozinha argentina contemporânea”. Como parte da camada de jovens cozinheiros que reivindica a gastronomia local, Soledad Nardelli se projeta desde diversos cenários: à frente do Chila, o premiado restaurante que comanda no bairro portenho de Puerto Madero; na televisão, a partir da tela de El Gourmet; e dando aulas a sibaritas, curiosos e amateurs que procuram algo além de um bom prato. Em todos os casos, a Sole transmite uma cozinha atravessada pela experiência, uma verdadeira viagem às raízes para compreender a identidade nacional através da gastronomia.

Formada em IBAHRS, aperfeiçoou-se na Europa; fez curso de pós-graduação em cozinha na l’Ecole des Arts Culinaires et de l’Hotellerie em Lyon, na França, dirigida pelo mítico Paul Bocuse, e outro de Gerenciamento e Administração de Restaurantes na Universidade de Alicante, na Espanha. Recebeu vários prêmios e distinções. O mais destacado, talvez, é o prêmio “Chef do Futuro” outorgado pela Academia Internacional de Gastronomia em Paris no ano 2009 (foi a primeira mulher argentina em ser galardoada com esse prêmio). Desde 2013 é Embaixadora da Cozinha Argentina, através do Convênio Marca País do qual, participa também o chef argentino Mauro Colagreco.

Pura vocação
“Deste mundo, tudo me apaixona”, diz, rotundamente, com a convicção de quem tem uma vocação marcada, embora assuma que começou estudando direito e não gastronomia. “Escolhi Direito para seguir uma carreira tradicional e errei. Eu sabia que devia me orientar pelo lado humanístico: imaginava-me resolvendo casos, me apaixonava o valor da palavra, o fundamento, a Justiça”, diz e ri enquanto se lembra que o destino estava lhe marcando o caminho, de algum modo, mesmo que ela ainda não soubesse. “O absurdo é que eu estudava na UCA, e passava todos os dias pela porta do Chila, que nesse momento era Fechoria”. Foi depois de ver o mundo de seu primo, Luciano Nardelli – hoje discípulo de Alex Atala em São Paulo –, que estudava gastronomia, que começou a sentir curiosidade por essa área e decidiu se inscrever em IBAHRS. “Desde o primeiro dia, foi fascinação. Eu aprendi um oficio que desconhecia, realmente eu nunca tinha cozinhado muito”, esclarece.

Quais são as suas primeiras lembranças na cozinha?

Mais que com o cozinha em si, quando criança, eu tinha uma atração especial pela cerimônia de sentar à mesa para comer. Eu venho de uma família de classe média, descendentes de italianos, sou a terceira de quatro irmãos. Na nossa casa de Don Torcuato sempre tinha gente. A mesa era muito importante, desfrutar, compartilhar. Quem mais nos fazia sentir isso era o meu pai, Enrique, que cozinha muito bem. Coisas simples: os molhos para as massas, o churrasco. As minhas lembranças são as do domingo ao meio-dia e também as do famoso chá-jantar, com o que sobrava do fim de semana. Tínhamos uma nogueira de nozes pecans no jardim, e no outono juntávamos bolsas e meu pai fazia o pudim… eu me lembro do cheirinho quando saia do forno. Quando eu tinha quinze anos, eu fazia bolos para vender, mas isso tinha mais a ver com um hobby que eu tinha como empreendedora, que com a ideia de algum dia me dedicar ao negócio. Eu me divertia muito.

E como é que você se lembra daquela Sole que voltou da Europa, já profissional? 

Eu voltei com a crise de 2001, alguns meses depois disso. Eu dei aulas no IBAHRS durante um tempo, e fiz consultoria para alguns restaurantes. Ainda não tinha encontrado o lugar onde aplicar o que eu tinha aprendido, até que no final de 2005 eu senti que queria exercer em um restaurante, e chega até mim o anúncio de um projeto em Puerto Madero onde estavam procurando um chefe de cozinha com um perfil muito específico. Eu fiz a entrevista e fui escolhida. Eu sabia que o Andrés (Porcel, dono do Chila e Le Grill) queria fazer uma coisa sofisticada e me alinhei a isso. A carta de apresentação era a influência de tudo o que eu tinha aprendido: o espanhol, o francês, o sabor, o requinte. Era uma época em que havia produtos de todas as partes. A transformação para “o argentino” eu fui fazendo com o tempo.

Qual foi o acontecimento determinante? 

Em 2009, eu recebo o prêmio “Chef do Futuro” em Paris, uma coisa que eu nem esperava. Isso fez com que eu realizasse uma introspecção profunda, pensando no motivo pelo qual tinha acontecido comigo. Foi então que eu entendi que tinha que aprofundar na minha identidade para saber para onde ir. Liguei muitas coisas, voltei e decidi começar a viajar pela Argentina para entender os climas, a geografia, as pessoas detrás do produto, fazer uma pesquisa profunda. Nessa época, eu já tinha chegado a El Gourmet através de um casting, e propus a eles as minhas viagens. Foi assim que eu comecei com os ciclos e encontrei na televisão um meio para transmitir e chegar, muito além do aspecto gastronômico, ligando a questão antropológica e social.

Como você vivenciou a descoberta de seu país através desse olhar? 

Foi incrível. Foi compreender desde outro nível, valorizando aquilo que você tem. Ter um alho-poró na mão e saber de onde veio, ter o registro da terra, das pessoas, do grande esforço que foi feito pelos antepassados. Eu senti uma grande responsabilidade de aprender primeiro para logo poder transmitir depois. Eu descobri que a Argentina é realmente infinita. Quando eu vou para algum lugar, eu peço uma lista com os produtos da região, para pesquisar, entender o que é que há e quem está detrás de cada coisa. Sempre existe uma pessoa, uma comunidade. São eles quem nos fornecem as ferramentas para nós.

O que você acha que temos como país? 

Com certeza, a biodiversidade: muitos climas, diferentes geografias. Mas também, boa gente, afabilidade humana. Estamos percorrendo um caminho muito agradável, mas ainda falta. Existe muito esforço orientado a este projeto e é preciso unifica-lo. Nessa tarefa de reunir existem diversas questões como a GAJO (Gastronomia Jovem Argentina), que surge como um grupo de amigos, espontâneo e orgânico que terminou formalizando-se em pós de uma busca comum, principalmente a de respeitar o caráter estacional dos produtos e ter a mesma filosofia de trabalho.

Qual será o próximo passo? 

Eu acho que vamos em caminho de respeitar a cadeia de princípio a fim, de propiciar o comércio justo, e melhorar a rede de distribuição. Pessoalmente, eu gostaria de continuar com essa linha que estamos seguindo, fazer alguma coisa que também ajude a lutar contra a fome, que tenha uma perspectiva mais social. Temos que trabalhar muito nesse aspecto. Eu acho que nós, os cozinheiros, temos também essa responsabilidade hoje em dia. É necessário fusionar cada vez mais a cozinha com outras disciplinas e profissões: cientistas, antropólogos, historiadores, nutricionistas, artistas, fotógrafos e pintores. O objetivo é melhorar a nossa alimentação, entender o que comemos e a riqueza que temos como país.

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Chila, entre os 50 mejores

Em 2014 e por segundo ano consecutivo, desde que os prêmios começaram a ser entregues para a região, o restaurante Chila foi reconhecido pela Guia San Pellegrino como um dos 50 Melhores Restaurantes da América Latina. “Uma menção como esta é fruto do trabalho de toda a equipe, é um grande orgulho, uma carícia. No primeiro ano, eu estava mais descontraída, não sabia o que ia acontecer”, reconhece a chef, e agrega: “Não trabalhamos para os prêmios, mas a verdade é que eles trazem más comensais, e se isso beneficia o restaurante, que seja bem-vindo. O Chila é minha casa, mas também é um negócio, e uma coisa assim leva o restaurante a uma escala internacional”.

Mais inf.: www.chilaweb.com.ar
Aulas de cozinha: cocinasolenardelli@gmail.com


Matéria de Daniela Dini.
Publicada em CHE. Una revista sobre Argentina. Nro. 6
Fotos: BB Tesio

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